sábado, 24 de maio de 2008

SLOW Food, Alimentação Lenta

Outro dia li um artigo sobre o "SLOW Food", uma nova modalidade de alimentação que tornou-se muito popular no Estados Unidos. Dizia o artigo que os cardápios dos restaurantes deste gênero servem exclusivamente rabanetes, alfaces, grãos de bico, sempre comidas vegetarianas e leves, e que a proposta central é de se comer lentamente, prestando atenção no ato de se alimentar. Independente do baixo valor calórico dos alimentos, o "SLOW Food" faz parecer que se está comendo um banquete.
.....Um belo Sábado resolvi testar a novidade. Voltei da feira carregada de vegetais e hortaliças fescas, tomei um longo banho de banheira, com essência de alecrim e espuma de lavanda, me vesti com um longo vestido de algodão orgânico e fui à cozinha preparar meu banquete. O prato principal: TOMATE. O acompanhamento: RÚCULA desfiada. Isso mesmo, o centro da refeição seria o enorme tomate vermelho que eu comprara na feira. E nada mais!
.....Caminhei com os pés no chão até a geladeira, colhi o tomate do fundo da gaveta da geladeira e lançei-o sob o jato de água fria. O tomate era enorme, maior do que as minhas duas mãos, e eu o acariciei. Olhei suas curvas e pensei: vou te comer! Daí sequei ele com uma toalha e coloquei-o sob a mesa, em cima de uma tábua de madeira. Selecionei uma faca enorme, a mais afiada que tenho em repertório. Tomei o tomate nas mãos e descasquei-o bem devagar, tirando-lhe somente a pele, com todo o cuidado do mundo para não o machucar. Demorei um longo tempo nesta atividade, sentindo gradualmente a textura da carne do tomate se desvelando na minha mão. Foi me dando aquela fome!
.....Daí sim, coloquei-o de volta sobre a tábua e começei a parti-lo em fatias bem finas. Uma a uma. O tomatão rendeu umas vinte fatias gigantes, vermelhas, sementadas, maravilhosas. Cada uma delas eu espalhei num amplo prato de vidro transparente, como se fosse um carpaccio saboroso. Terminado o corte, temperei-o com azeite de oliva portugês, orégano italiano, mostarda de grãos, alcaparras e azeitona gregas grandes e negras. Finalmente, cerquei as rodelas de tomate com a rúcula desfiada, salpicada de vinagre de arroz e pimenta do reino.
.....Cobri a mesa de madeira rústica com uma toalha de renda renascença e decorei-a com um vaso de flores campestres coloridas, acendi até duas velinhas antes de sentar-me à mesa com o carpaccio de tomate. O comi lentamente, cortando cada fatia em diversos pedaçinhos, saborando cada um como se fosse o último pedaço de alimento do mundo! Confesso que foi uma experiência absolutamente do além! Nunca um tomate foi tão deliciosamente saboreado e, sinceramente, a sensação de preencimento que senti foi como se houvesse comido um enorme rodízio de carne! (antes de virar vegetariana, claro!)
.....Deste episódio tirei a conclusão que realmente há algo correto da filosofia do "SLOW Food". Na vida caótica e corrida urbana a gente come demais, rápido demais, comida pesada e temperada demais, porque não conseguimos nos concentrar no importante ato de se alimentar. Não estamos aptos a sentir gostos suaves e as texturas dos alimentos, por isso os restaurantes precisam cada vez mais carregar tudo de sal, pimenta, conservantes e outros atrativos para que a comida GRITE para nosso cérebro que ela está ali.
.....Recordei-me do buffet aonde almoçava diariamente no trabalho, do estilo "tudo por R$19" e pensei na quantidade de comida que eu comia, sem me dar conta, conversando sobre trabalho com um monte de gente estranha, sobre as notícias estressantes de jornal do dia, fofocas malígnas etc. Ao comparar aquela experiência absurdamente exagerada com a experiência áurea do tomate, eu tive até vergonha do meu passado!
.....Sei que não será todos os dias que poderei me encontrar com o meu tomate, como naquele dia, mas pedi a Deus que, ao menos uma vez por mês, eu possa praticar o "SLOW Food" e, a cada dia, comer mais lentamente, menos quantidade, e estar em contato com as coisas que eu insiro dentro do meu organismo.

3 comentários:

Tereza Martins disse...

Slow Food é bem mais que "comer lentamente". Faça um passeio pelo site Slow Food Brasil e você vai entender o quão interessante é o movimento e como ele atua no Brasil:
www.slowfoodbrasil.com

Sugiro inclusive que você acrescente um link para o Slow Food Brasil no seu texto.

marcia bechara disse...

oi, ce tá boa? demorei, mas apareci por aqui... beijos!

Mauricio Schuartz disse...

"banho de banheira, com essência de alecrim e espuma de lavanda"! Assim qualquer carpaccio de tomate vira pichana fatiada! Adorei o conceito e vou ficar esperando um slow invite pra um slow dinnner!
bjs