quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Quadro Negro

.....Era noite de consciência negra na Praça da Sé, a galera reunida no entorno do palco para assistir aos shows. Naquela hora estava tocando Rappin’Hood, mas como havíamos ido para assistir Martinho da Vila passeávamos pelo espaço. Foi quando vimos um homem caído no chão, parecia não se sentir bem. Não dava para saber se era cachaça ou doença súbita. O homem não estava muito bem vestido, mas também não era um mendigo. Era negro, alto, vestido de forma simples e caído ao chão. Não podíamos deixá-lo ali sem fazer nada, portanto me aproximei de um policial comunitário, dentre algumas centenas deles que rondavam a praça, e notifiquei-o de que havia um senhor passando mal no chão. Ele perguntou aonde, eu apontei na direção certa. Ele disse que tomaria as providências. Demos mais algumas voltas, compramos uma cerveja e logo estávamos de volta aonde caíra o homem. Nesta hora, uma dupla de policiais já o cercava. Cutucavam-no com o pé e diziam-lhe, "Senhor? Senhor? Está se sentindo bem?" O homem jazia no chão, com expressão sofrida, mas ainda era difícil decifrar se tratava-se de cachaça ou doença súbita. Os policiais eram também negros, altos, mas vestiam uniforme da policia civil. Após alguns minutos de tentativas frustradas de diálogo, o policial líder da dupla retirou dos bolsos um par de luvas cirúrgicas e vestiu-as com cuidado. Não era óbvia a função das luvas, de fato nem mesmo formulei hipóteses. Muitos já observavam a cena. Luvas em dedos, o policial agachou-se próximo ao negro deitado e falou-lhe, "Vamos levantar?" Cirurgicamente agarrou o cós das calças do homem e puxou para que ele se erguesse. Mas o homem estava realmente mal, não conseguia dar resposta. Será que não haveria uma maneira mais adequada de levantar um homem do chão, que não puxando pelo cós das calças? Seria isso procedimento policial padrão? Não poderiam simplesmente abraçá-lo lado a lado e carregá-lo até o atendimento médico? Sei que a técnica usada não funcionou bem e era incomodo de se ver. O homem não se equilibrava, ao contrário, o puxão de mãos enluvadas parecia instabilizá-lo ainda mais e ele rolava de um lado para o outro. O policial, meio sem jeito frente a tantos espectadores, tornou-se nervoso e terminou por puxar de forma mais firme. O semblante de dor do negro caído se exarcebava desta forma e era triste ver. Meu companheiro naquela noite disse-me triste assim, "São irmãos, vejam como se tratam." Nisso fiquei a pensar nos irmãos negros, o policial e o homem caído ao chão. Na África ancestral talvez não fossem isso e sim inimigos de tribos distintas, mas a travessia do oceano certamente os tornou isso – irmãos de origem Africana, escravos brasileiros, mais tarde negros livres brasileiros, o que são até hoje. Alguns ascenderam socialmente, como o policial. Outros quedam ainda caídos no chão. E que má vontade do irmão ascendente em erguer o irmão caído, não? Parece que ele temia cair junto para o fundo do poço. Parece que temia algum tipo de contaminação (por isso a luva?). Parece que temia aquela imagem prostrada ao chão, temia ser algum dia exposto àquela dor, àquela derrota. Caminhamos para o outro lado da praça. Não era uma imagem bonita de se ver aquela, particularmente nesta data da Consciência Negra.
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18 Dezembro 2007 (defasado em relação à data do ocorrido, Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, mas quem explica a origem da inspiração de sentar e escrever?)

2 comentários:

Flavio disse...

http://axolotl.zip.net/arch2007-12-01_2007-12-31.html#2007_12-21_01_22_58-5125453-0

Mauricio Schuartz disse...

acabei de ver esse teu post e lembrei de um vídeo meio caótico q eu fiz há mto tempo no centro. É uma coisa meio caótica, mas no fundo mostra mto da insensibilidade da GCM (Guarda Civil Metropolitana), que é considerada a maior milícia armada do Brasil. E como eles são despreparados! http://www.youtube.com/watch?v=80IPJ9Gl_RU
bjs